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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Indefinida...

Ah esse é um segredo de si mesmo.

Versos intimos (Augusto dos Anjos)


Vês?! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O homem , que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo, Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja esta mão vil que te afaga,
Escarra nesta boca que te beija!

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Clama-te Eros....

Parece unânime a opinião de que, o que define arte erótica de pornografia, são suas finalidades da publicação; se provocam a participação do público pela excitação sexual ou se solicitam a participação apenas indireta deste público, solicitar uma cumplicidade a distância. Seguindo então o caminho por entre as acaloradas discussões que o assunto incitou (e excitou), chegamos ao que possivelmente é o que há de mais próximo de uma fronteira entre a arte, o erotismo e pornografia: o site americano Suicide Girls.


O famoso sítio foi criado em Setembro de 2001 por Missy e Sean (sim, sem sobrenomes) como uma convergência underground onde o privilégio era a manutenção e o louvor ao punk-sexy. A proposta era simples: explorar belezas femininas fora dos padrões fashion, a beleza da geek, da nerd e da punk-rocker crivada de piercings e tatuagens (basicamente: todas aquelas meninas que na época da escola só coleccionaram desgostos em suas auto-estimas). Conseguiram fazer disso seu conceito editorial, transformaram-no em griffe - vendem de bottons a DVDs, passando por roupas de yoga da marca. Em final de 2003, consolidou-se como agência de modelos e revista eletrônica, abandonando o submundo, cujo formato sustenta uma saúde previsivelmente longeva. Mas o que os colocam aqui neste debate são os usos e finalidades de seus, majoritariamente belíssimos, ensaios fotográficos.

Suicide Girls coloca-se como a nova Playboy e, tal como sua mentora, direciona suas imagens à venda, convidando seus consumidores à usufruírem, a pouco mais de 45 dólares anuais, de suas garotas tanto como cúmplices artísticos quanto como pornófilos. Essa dualidade de intenções distorce um pouco a questão do pornô como vulgaridade; aliás, seria toda pornografia vulgar? Seria o SG uma espécie de pornografia gentil? O que fica claro é que as intenções não são puramente artísticas, provocadoras do erotismo.

Quanto à coerência editorial-artística, trabalham com um grupo de fotógrafos representantes encontráveis em quase todo território planetário; todos devem explorar as tendências do rock'n roll desde o mais clássico às mais recentes modas emocore - a música entra aqui como principal filosofia e coerência artística. Devem manter o mote gótico e dar boas vistas às body mods, amalgamando tudo à frescura do clean e a um colorido à la Barbie na velha e deliciosa provocação dominadoras-dominadas. Tudo numa releitura por este século XXI. É o que faz crescer espantosamente o número de assinantes e (o que chamam exército) de modelos. Também instigam aqui nossas discussões.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Assim é a literatura,"é minha maneira de estar sozinho" Fernando pessoa

Que eu fique o mesmo.
Que importa àquele a quem já nada importa
E o resto, as outras coisas que os humanos
Acrescentam à vida,
Que me aumentam na alma?
Nada, salvo o desejo de indiferença

Quer pouco, terás tudo.
Quer nada: serás livre.

Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Niguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu íntimo destino involuntário

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Ser um é cadeia,Ser eu é não ser.
Viverei fugindo,Mas vivo a valer.
Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.

Sim, louca à normalidade, ao que é comum, ao que a maioria faz, a mediocridade.
Mas a loucura da sabedoria, da genialidade
È uma loucura que liberta, uma loucura escolhida.

Louco, sim, louco,
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

Fernando Pessoa.

domingo, 2 de novembro de 2008

Nostalgia de menina



Bem dentro da saudade em que me fiz
Há uma Sepultura modesta
De uma ilusão
morava ali – meu sonho de moça.
Por que morreu meu sonho de menina?
Para ficar apenas uma carcaça
No corredor sombrio da memória?


Apressada, louca, delirante,
Tu me dizes, querida, sem diálogo.
Eu emudeci, pensando que o silêncio
Era uma forma de falar...