
Vivemos tempos estranhos. Quanto mais se tenta convencer as pessoas das vantagens de nossa época, do benefício das crescentes comunicações, da segurança dos modernos sistemas, do avanço da técnica, dos progressos reiterados da ciência, das descobertas no campo da psicologia, mais crescem o medo e a tristeza nos corações humanos. É como se todos esses avanços não chegassem nunca a tomar forma de verdade e permanecessem nas trevas das dúvidas.
Cada vez torna-se mais difícil situar-se de forma correta no tempo e no espaço, tão imersos estamos em um constante movimento sem sentido entre verdades e mentiras, dúvidas e certezas. De forma cada vez mais freqüente, se diluem os limites estabelecidos pelas leis e acordos, pelas tradições e costumes e, na falta de outros elementos para substituir esses limites, surgem a confusão e o desconcerto. Os extremos chegam a ser tão marcados que acabam por unir-se: passado e futuro, o permitido e o proibido mesclam-se com matizes de pesadelo ou de grotesca comicidade.
Antes, quando éramos crianças, nos contavam histórias prodigiosas repletas de personagens excepcionais; vivíamos com a imaginação habitada por heróis mitológicos e desfrutávamos junto com eles de suas aventuras. Hoje nos convenceram de que tudo aquilo era mentira, nos retiraram os heróis, os prodígios, o sabor fantástico dos mitos e até o sentido da história quanto à verdade dos fatos ocorridos no passado. Fomos privados dessas fantasias nefastas para nos afundarmos em uma realidade sem cores, uma realidade que deve ajustar-se a números e leis com pretensão de irrefutáveis. Tudo é medido e pesado, mas curiosamente nada tem um valor nem uma dimensão estável. As coisas parecem fixas e sólidas, mas aqueles que tentam sujeitar-se a qualquer uma delas caem irremediavelmente no vazio.
Não sabemos como chamar as coisas pelo seu nome; não sabemos que nome tem as coisas e nem sequer se todas têm um nome. E assim chegamos a um estado onde a maldade mais refinada dá a mão à ingenuidade mais desprotegida.
Há, como antes, bons e maus, sábios e ignorantes, há justiça e homens justos? Ou será que essas palavras e seu romântico conteúdo também devem parar no cemitério dos conceitos arcaicos e devem ser substituídas por novas e mais de acordo com a venerada modernidade?
Por acaso morrem as idéias? Não será o caso de que não existam receptáculos capazes de acolhê-las?
Os mitos hoje
Muito se tem discutido sobre a autenticidade dos mitos, oscilando-se entre a verdade histórica oculta no tempo e a verdade psíquica que registra situações arquetípicas e as traz de volta em relatos e episódios estranhamente similares em diferentes povo e épocas.
Platão utilizou os mitos para velar com símbolos certas verdades inacessíveis à compreensão comum. Suas obras estão recheadas destes contos surpreendentes que parecem sair por completo do âmbito dialético e racional com que conversam seus protagonistas.
Outros autores clássicos nos ensinam que quanto mais a história penetra no passado, mais os acontecimentos perdem o colorido das circunstâncias particulares para ficarem tão somente em sua essência. Fica apenas o fato desprovido de qualidade e logo voltará a enriquecer-se com o toque imaginativo daqueles que se referirão a ele de mil maneiras distintas. Quando esse fato - com qualidades mais ou menos similares - se repete em diferentes momentos da história ou quando são muitos os grupos humanos que registram fatos parecidos, o mito reforça-se cada vez mais.
Jung explicou os mitos como situações arquetípicas que correspondem ao desenvolvimento da humanidade. Assim, além de serem lendas populares ou representações mistéricas dos iniciados, pode-se dizer que cada um vive a seu modo os mitos que lhe incumbem nos momentos especiais de sua evolução. Para isso, somente é preciso descobri-los como uma realidade pessoal e aproveitar a experiência que deles se deriva.
Nosso século está repleto de mitos que não se afastam muito daqueles que hoje são considerados infantis e impróprios para uma mentalidade avançada.
O professor Jorge Angel Livraga, em um de seus livros, "Os mitos do século XX", nos mostra um conjunto de símbolos que hoje têm um valor mítico, embora não se ajustem a realidades estritas. Aborda temas com a igualdade, o progresso indefinido, a democracia, a tolerância e o ecletismo e outros tantos conceitos que são de domínio público, palavras repetidas até a saciedade, mas quase impossíveis de se encontrar nos fatos cotidianos.
O que expressam nossos mitos modernos? A ânsia em conseguir o que desejamos, mas não temos? O medo das nossas carências? O fingimento como tela da mentira? A obscuridade interior da ignorância que às vezes salta como uma chispa de luz na superfície?
Em todo caso, nossos mitos não giram ao redor de grandes personagens nem de heróis com virtudes. São mitos anônimos e massivos que pertencem a todos e a ninguém, sem exemplos claros e sem finalidades concretas.
O único aspecto que está claro é que o homem de hoje não pode prescindir desses símbolos que encobrem, protegem ou vestem com novos adereços as velhas idéias de bem e de justiça.
Mas os mitos estão hoje tão descaracterizados que fica difícil encontrar a ponta do fio que conduz a verdade. As palavras cantam umas coisas e os fatos dizem outras bem diferentes. O que prevalece, então, a maldade ou a ignorância?
Uns sim e outros não
Quem dita as leis que permitem a uns o que é proibido a outros?
Há aqueles que podem cometer todo tipo de ações, de forma aberta ou oculta, escondendo-se por trás de outros personagens ou instituições, e no entanto são considerados homens respeitáveis, em todos os casos obrigados pelas circunstâncias a comportar-se de uma forma particular.
O mesmo se passa com estados, nações e administrações que podem recorrer a todo tipo de artimanhas, cominados por desconhecidas razões que os tornam intocáveis.
Os infelizes são os outros, os que tentando remediar essas ações presumivelmente dignas para alguns, se convertem em delinqüentes e corruptos.
Os infelizes pecam por ingenuidade. É possível que se perguntem: se outros podem porque não posso também? Os poderosos pecam por maldade: lançam a pedra, escondem as mãos e acusam aquele que foi apedrejado.
Como é possível que uma nação se atribua o direito de usar armas contra outra em nome da justiça ou como corretivo, e no momento seguinte se apresente com juiz do país que ataca o vizinho pelas mesmas ou semelhantes razões? É a confusão da torre de Babel: quando o faço, tem um sentido; e quando você o faz, mudam os valores. Como podem alguns políticos, em algumas situações, lutarem em favor da tolerância racial, entre outros motivos, para logo se comportarem de maneira diferente em suas vidas privadas? Na Torre de Babel também era vivido o ditado do "faça o que digo, mas não faça o que faço"?
Pode uma nação devastar outra em nome de velhas rixas não resolvidas, enquanto protesta por não ter apoio internacional ante situações de terrorismo e guerra? Onde está o aceitável? Na maldade daqueles que se permitem ser maus com aspecto de bons? Ou nos ingênuos que, com sua falta de caráter e decisão, dão cabida a um maior quantidade de maus?
Em uma primeira aproximação, os poucos que podem, parecem ter muito mais força que os muitos que ficam sem fazer nada. Se a maldade e a ingenuidade dão a mãos, a mão má aperta a mão ingênua até destruí-la.
A batalha apresenta uma decantação em direção a um dos bandos, embora não saibamos se a guerra será ganha pelos "maus". No momento, todos se atacam mutuamente tratando-se de corruptos e depravados: hoje é costume se meter na vida privada dos demais para desenterrar histórias verídicas ou inventadas; hoje todos acusam a todos de mentir ou levar pessoas ingênuas à destruição. Então, em quem acreditar?
Além disso, hoje tornamos a ver suicídios que correspondem ao temor de perder o bom nome, o prestígio, ou deixar a descoberto um vida de obscuros negócios. E se há suicídios, isso equivale a dizer que há dor, há desespero, há necessidade de honra, de purificação e redenção.
Mais além da maldade maquilada de refulgente dama, desponta uma chispa de natureza não de todo apagada, que não pode ser somente ingenuidade mas ansiedade de pureza, de verdade e de justiça. Não se deve deixar extinguir essa pequena luz.
Quando tudo se turba e se confunde, até a Torre de Babel converte-se em labirinto intricado, onde todas as entradas parecem portas, mas não são mais que novas armadilhas. Convém continuar preso e sonhando com falsas janelas e com um luz imaginária, ou buscar a saída com inteligência?
Se cada um tem que viver e resolver seus próprios mitos, nos corresponde introduzir claridade e veracidade onde estas não existem, abrirmos caminho com coragem ainda que nos chamem de iludidos e ainda que tenhamos que fechar para sempre as mãos para os que se disfarçam de bons para distribuir a justiça e a injustiça em seu próprio benefício.
Quando as coisas estão em seu lugar, pode acontecer que os extremos cheguem a tocar-se, mas nunca são absolutamente opostos. A mentira jamais será verdade, a traição jamais será lealdade, a opressão não é liberdade, a desonra não é prestígio, a ignorância não é comunicação massiva, o ódio não é amor, a indiferença não é solidariedade.
Não. Quando a maldade e a ingenuidade dão as mãos é hora de colocar ordem nas coisas. E isso não é somente um mito.
Delia Steinberg Guzmán
Diretora Internacional da Associação Cultural Nova Acrópole
sexta-feira, 10 de julho de 2009
Quando a maldade e a ingenuidade dão as mãos
Reflexões de Sara às sexta-feira, julho 10, 2009